quarta-feira, 29 de julho de 2009

Paixão Maluca


Eles são malucos. Adoráveis também, inteligentes, competentes, profissionais, mas sempre malucos.

Não acordam muito cedo, é verdade, mas só vão dormir depois de muito trabalho.

Dormem no chão, no frio, até a igreja já virou quarto e os bancos a cama para acomodar alguns deles.

Mágicos e ilusionistas são capazes de transformar a escuridão da noite e em amanhecer do dia. Se for necessário, também podem encher um quarto escuro de hotel com os raios mais fortes do sol.

Só mesmo gente muito doida consegue fazer isso.

São fortes também, carregam toneladas de peso, pra lá e pra cá, sobem e descem, arrumam tudo, ajeitam aqui e ali e desarrumam tudo só para arrumarem de novo em outro canto. E assim vai, e assim não param.

Dizem que é o amor pela arte, pelo cinema. Não se entende muito bem essas coisas, mas até faz um pouco de sentido. Afinal, é assim que ficam as pessoas apaixonadas não é? Se empenham tanto para ver um simples e belo sorriso. Eles também, trabalham duro, horas e horas para filmar apenas alguns segundos de uma cena, um olhar, uma emoção.

Só pode ser coisa de maluco mesmo.

O engraçado é que quando tudo termina se sentem os mais felizes do mundo, com prazer na alma, no coração. Querendo mais, mesmo sem ganhar, financeiramente é bom ser dito, porque todos compartilham juntos da mesma experiência, da mesma sintonia e harmonia e de como estão sendo enriquecidos com conhecimento, aprendizado, trabalho em equipe e por que não, amizade...

É aquela sensação boa no peito, como quem constrói e realiza um sonho, conclui uma obra, compõe uma linda canção.

É verdade.

No campo da arte, do imaginário e da imaginação, do subconsciente e do subjetivo nada é produzido pra ninguém. Há de haver sempre um, no mínimo, pra se comunicar e interagir. E essa vontade de produzir, se doar e ser acrescentado é o que deve motivar esse grupo de malucos a se unir e se reunir pra juntos percorrerrem um caminho que vai além do que se possa imaginar.

São malucos então?


Gianda Oliveira


*A Gianda acumula as funções de continuinista e "claqueteira" (mais fashion da história do cinema, diga-se de passagem) em nosso filme.

terça-feira, 28 de julho de 2009

O brilho das garras


Eu acreditava que não me emocionaria mais com a magia do cinema por estar trabalhando atrás das câmeras. Pensava que seria mais ou menos igual quando era criança e desmontava os brinquedos para ver o que tinha dentro; ou quando deixei de acreditar no papai Noel depois de ter descoberto que sua barba era falsa... Ledo engano. A magia que envolve o cinema é muito maior que tudo isso, muito mais forte do que se possa imaginar! Mesmo criando uma história, escrevendo um roteiro e conduzindo a transformação dessas linhas em imagem e som, ainda venho me emocionando a cada novo dia de filmagem. É incrível como a história ganha vida própria na tela! Por mais que eu tenha feito à marcação da cena e escrito o diálogo, não reconheço o que vejo na tela do meu retorno... Surpreendo-me (ainda que saiba exatamente o que vai acontecer), me emociono, me alegro por ver a amplitude daquele momento.


Escritores, de um modo geral, não podem ser egoístas com suas histórias. Cada um que lê cria algo diferenciado, enxerga um detalhe que o próprio criador não viu... Quem escreve para cinema, então, é desafiado de forma ainda mais assustadora. Assim que o cenário é montado, que os atores estão caracterizados, que a luz natural foi modificada para a cena, a criatura-história mostra suas garras. Ela afia as unhas e desafia o escritor para um duelo. Eu me rendo a sua imponente vontade... E deixo que tome seus rumos caminhando pelas estradas que criei, para depois me ver sorrindo (e com olhos marejados) no reflexo da tela do meu monitor.

Essa magia esteve presente o tempo todo no Hotel São Paulo neste último final de semana, quando gravamos duas cenas do filme. E, talvez por se tratar de um prédio antigo, de belíssima arquitetura, voltei de lá trazendo uma melancolia gostosa, uma saudade de algo que nunca tive. Então, percebi que era saudade da minha história, pois ela simplesmente se foi, pegou as rédeas de seu destino. E cresceu diante de meus olhos imaturos...

O mais surpreendente neste momento, para mim, é que esse sentimento está se transformando em algo reconfortante, parecido com dever cumprido. Meu dever não está nem perto de estar cumprido, mas já consigo visualizar uma pontinha de satisfação pelo trabalho feito até agora.

As cenas feitas no hotel eram cheias de detalhes e isso nos atrasou um pouco. Hunfrey e eu estávamos mais preocupados com a segunda cena a ser gravada, pois ela dependia exclusivamente da atuação dele e trazia uma carga dramática muito grande. Tive que segurar as lágrimas no final, ao me deparar novamente com um mesmo fato: não havia um ator interpretando um personagem ali naquele quarto, mas sim uma outra pessoa expondo seu drama, num momento real de sua vida. Era a criatura-história que havia abraçado com suas garras afiadas meu amigo Hunfrey. Fui solidária a ele, pois estava sentindo aquela mesma dor... E ele foi brilhante entregando sua alma a ela! Sem medo algum, sem titubear... Expelindo a magia por todos seus poros!

Ontem a diretora que habita meu ser estava tranqüila (e tem ficado mais e mais a cada novo dia de filmagem), mas a escritora se mantinha impaciente. Isso porque a escritora não tem mais seu rebento para cuidar, ele cresceu e cortou seus laços. Daí, um certo comichão passou a incomodá-la... E, hoje, naturalmente outra história começou a germinar...

Um beijo no coração de cada maravilhoso colega de equipe!

Bia

Mais olhares... Hélio Tuzzi






















segunda-feira, 20 de julho de 2009

Nossa meteória (ou quase) passagem por Ipiguá



Como prometi, aqui estou eu para relatar os acontecimentos do último final de semana. Desta vez, após muitas súplicas e juras de morte, São Pedro segurou a chuva e nos mandou um sol esplendoroso. Na verdade, tanto sol até nos atrapalhou um pouco (que São Pedro não leia isso... será que no céu tem internet?), pois tivemos que refazer uma cena devido à intensidade da luz. Mas nem dá para considerar isso como um problema... O negócio foi amarrar uma faixa de dois metros entre dois coqueiros plantados a quase dez metros um do outro! Por sorte temos o Macaco! Ele subiu no coqueiro com a facilidade nata dos símios... rsrsrs....
E como já era previsto essa semana a interação da equipe foi bem maior. Aquele estresse do início diminuiu bastante e só o fato de não ter chuva e nem frio contribuiu muito para o trabalho fluir.
No sábado, gravamos a cena da chegada do personagem principal à cidade. Foi uma loucura! Gravamos dentro de um ônibus que a prefeitura de Ipiguá gentilmente nos cedeu. Alguns moradores se ofereceram como figurantes e lá fomos nós, estrada a fora! Confesso que me perdi por um momento na direção e aprendi mais uma coisa: atores e figurantes são criaturas completamente diferentes! Parece claro, não é? Mas se você é um diretor estreante como eu, ou mesmo se pensa em dirigir alguma coisa, algum dia, lembre-se disso. São poucos detalhes que preciso acertar na atuação do elenco do filme, a maior parte das intervenções que faço na cena são referentes à marcação. Acredito (e tenho comprovado essa tese no decorrer das filmagens) que não é preciso ser outra pessoa para atuar. Se o ator entender o personagem em todas suas nuances, ele naturalmente terá as reações necessárias ao momento dramático. E isso fizemos bem durante nossos encontros. Eles entenderam e incorporaram todos os sentimentos que estão implícitos em cada ser que habita o roteiro do filme.
A Carla me disse uma coisa interessante no domingo de manhã, enquanto era maquiada pela Flavinha. “Acordei hoje angustiada pela Ana (Ana é sua personagem). Coitada dessa mulher! Quase chorei pensando no seu sofrimento!”. Isso prova que ela está sentindo a dor de sua personagem, que entendeu os momentos de aflição, absorveu todos os porquês da Ana. Ela não está encarando a personagem como um ser fictício, e sim como uma pessoa de verdade. Fiquei orgulhosa de nós duas! Por ela, que se doou à personagem; por mim, que fiz meu dever direitinho...rs.
Bem, diante disso tudo, falhei com os figurantes. Escolhi duas garotas para contracenar numa cena simplizinha, sem falas, sem maiores problemas. Só esqueci do detalhe que a câmera inibe as pessoas que não estão preparadas para ela e joguei as meninas na fogueira. Dei instruções básicas e liberei o Leandro para gravar. É claro que não deu certo! Elas riram, ficaram tímidas, se atrapalharam até! Depois falei com elas um pouco melhor (apesar de não ser como deveria... agora sei) e a coisa saiu. Mais um aprendizado para essa atrapalhada diretora!
Também descobri que não dá para dirigir sem retorno. Estar com meu monitor ligado é fundamental para que eu me situe na cena. Algumas vezes eu nem peço para ligar, mas ainda que seja uma cena simples, fico perdida sem ele. Mas eu vou aprendendo...
Por volta da meia-noite de sábado começamos a gravar as cenas adicionais na igreja. Faltava pouca coisa, mas era imprescindível que fizéssemos mais alguns takes. Varamos a madrugada gravando e, dessa vez, deu tudo certo.
Já no domingo não conseguimos cumprir o cronograma. Logo pela manhã, muito animados apesar da noite mal dormida (marido, filhos e eu dormimos no chão... alguém pode me doar uma barraca para família, please?), seguimos em direção ao bar. Qual não foi nossa surpresa, quando o proprietário do estabelecimento nos comunicou que não poderíamos gravar, pois o local estava lotado. Voltamos para o QG e ficamos monitorando quando os ilustres freqüentadores do boteco resolvessem desocupar o recinto. Isso aconteceu lá pelo meio-dia... O Ricardo, dono do bar, se saiu muito bem interpretando o dono do bar e o Sr. Serafim, um simpático velhinho que passava por lá, se ofereceu para interpretar um freguês que chega para comprar uma cerveja. De início, o Hunfrey duvidou da interpretação deles, mas fui teimosa e decidi tentar. Deu certo! Fiquei feliz por eles terem ido bem e mais ainda por poder aproveitar o pessoal da cidade para enriquecer o filme. Muito obrigada aos dois!!!
De tarde, tínhamos apenas uma cena para fazer e encerraríamos nossa passagem pela cidade. Só não contávamos com um pequeno “problema”: de vez em quando tem pagode na praça da igreja... E adivinha? Justamente ontem aconteceu o maior rala-coxa em Ipiguá! Por falta de um, dois grupos de pagode estavam tocando na cidade, um na praça e outro no quarteirão seguinte! AFFFFFFFFFFFFFF!!!!!!
Óbvio que não conseguimos gravar. O pessoal do grupo até foi bacana e parou de tocar por um momento, mas aí a música do outro grupo vazava no áudio que estávamos captando e decidimos parar. Resultado? Semana que vem estaremos nós, de novo, na bela Ipiguá!
Ahhh! Mas nem vou reclamar, viu... Deu tudo certo e um atrasinho aqui, outro ali, nem dá para considerar. Estou aprendendo a lidar com imprevistos. Fazer filmes na raça como estamos fazendo é aprendizado para uma vida inteira. Pode acreditar!

O “QG”

Eu não poderia deixar de falar do nosso QG. Pois é, montamos um quartel general no salão paroquial de Ipiguá. Como nosso dinheiro é pouco (muito pouco mesmo), não temos muitas regalias. Mas parece que quanto maior é a dificuldade, o pessoal fica mais animado! Da próxima vez, só vou levar pão e água para alimentar esse povo... rsrsrs.
No canto direito do fundo do salão fica o Dahma, ou melhor, a barraca do nosso protagonista. Com seu colchão inflável, banheira de hidromassagem, sauna seca e a vapor e deck para avistar o por do sol na estonteante Ipiguá, Hunfrey e sua primeira-dama, Flávia Carvalho, aproveitaram momentos de indiscutível prazer em seus aposentos.
Ainda à direita, porém um pouco mais ao norte, podíamos avistar a Caic, bairro residencial onde estavam instaladas as barracas do diretor de fotografia e esposa, Leandro Marcondelli e Patrícia Fernandes, além da barraca do primeiro assistente de fotografia, Fernando “Macaco”. Apesar de desfrutarem de menos regalias, ainda puderam aproveitar o som ambiente e confortáveis lençóis de cetim.
Próximos ao setor de alimentação do QG, ficaram instalados a produtora Valquíria e os assistentes de fotografia Eduardo “Cabelo” e Rafael. Mais adeptos ao um estilo despojado, dormiram sobre colchonetes e edredons de pluma de ganso jamaicano. Um arraso!
Ao sul do salão, de fronte à Caic, estava localizada a Portelinha. Conhecida pelos casebres amontoados, a simpática favela abrigou essa diretora que vos fala e sua família, que dormiram em cobertores e edredons esticados no chão. Não estávamos lá muito confortáveis, porém posso garantir que a vista privilegiada das barracas vizinhas e o calor humano que trocamos em nosso amontoado de cobertas compensou qualquer desconforto!

Como nem só de cultura vive essa destemida equipe, para nossa alimentação providenciei marmitex de feijoada no almoço (para dar uma energia extra), refrigerantes, água, pão de forma com presunto e queijo no jantar, leite frio com chocolate e pão francês com manteiga no café da manhã e sequilhos. Também comprei umas 30 bananas, que o Macaco comeu quase todas. Devia ser umas três horas da madrugada e ele ainda tirava bananas da sua pochete. Normal, não é mesmo?
Estou brincando agora, mas a verdade é que só muito amor por esse projeto fez essas pessoinhas maravilhosas passarem por tudo isso! Daí, pode-se ter uma idéia da verdade que há nas palavras de todos eles quando dizem que o meu sonho agora é de todos da equipe!

Valeu, pessoal!
Ainda que eu não me torne uma cineasta, ainda que eu não faça mais nenhum filme, vou carregar essa experiência maravilhosa por toda minha vida! Vocês são incríveis!

Se alguém conseguir chegar ao final desse post imenso, fique com um beijo meu e mais fotos: dessa vez, os olhares são da Paty Fernandes.

Até a próxima!

Bia

P.S.: Ao anônimo que deixou um comentário sobre fotos dos atores, eles aparecem sim entre os integrantes da equipe. Entretanto, vou providenciar mais fotos deles. Só estamos segurando as fotos em que eles aparecerem caracterizados como seus personagens... só para criar um suspense... Você me entende, né?

1ªs gravações - Fotos de Patrícia Fernandes





























sexta-feira, 17 de julho de 2009

E lá vamos nós de novo!


E lá vamos nós de novo para mais um final de semana de gravações!

Dessa vez, o corre-corre foi menor (aleluia!), o que me parece bom. O Fernando andou bastante hoje, mas tudo dentro do previsto. Quer dizer, quase tudo... O ônibus que tínhamos arranjado furou, mas o Fer correu em Ipiguá e a prefeitura nos cedeu um outro. Aliás, Ipiguá foi uma escolha certeira... Recebemos muita ajuda do pessoal de lá.
Nem sei se já disse isso aqui, mas quase todos os livros de diretores de cinema que li diziam que quando se faz cinema tudo o que foi previsto dá errado. Achei engraçado quando li... Acontece, que eles não falaram só para serem engraçados. Dá errado mesmo, de verdade, sem sombra de dúvida. A parte boa é que eles também dizem que o errado acaba ficando certo, porque no improviso tudo acaba se ajeitando. Assim tem acontecido conosco. Conseguimos ajeitar tudo o que saiu do eixo até agora. E que os anjos digam amém para que permaneça assim! (Mas se puder não dar nada errado, euzinha agradeço).
Na quarta-feira tivemos uma reunião muuuuuiiiiito proveitosa. Marquei com o Hunfrey e o Leandro um pouco antes do horário marcado com todos para conversarmos sobre o que tínhamos feito e que rumo tomaríamos. Percebi que o Leandro estava inseguro sobre alguns pontos da história e isso me pareceu normal. Na verdade, eu até já esperava que acontecesse. A história que escrevi é complexa e não faço muita questão de explicar tudo, deixo pistas para que espectador tire suas próprias conclusões. Desde o começo das reuniões bati na tecla que deveríamos esclarecer todas as dúvidas, para que contássemos a mesma história. Só que o Leandro teve compromissos de trabalho e não pode comparecer. Na reunião de quarta esclarecemos tudo e fiquei muito feliz e tranqüila com o resultado.
Tudo bem que foi um risca-faca do caramba...rsrsrs.... (como ele mesmo disse). Mas acho fundamental ter alguém que discorde, que aponte para alguma coisa que não concorde. Se não for assim, como enxergaremos os erros? Desde o começo vi a dedicação do Leandro e, agora, mais do que nunca: ele brigou pela história, pela veracidade do nosso filme. Valeu!

Mas eu não poderia terminar esse post sem falar da primeira cena montada. Ficou lindamente arrasadora! Esses enormes adjetivos ainda são poucos para descrever. E olha que foi uma edição provisória, só para termos uma idéia do que foi realizado. Textura, figurino, interpretação... Ah! Só mesmo vendo para entender...

Hoje teremos fotos da Flavinha. Ela (e equipe) está arrasando no figurino e, entre uma troca de roupa e outra, deu show na captação de alguns momentos.

Beijos e até segunda!

Bia

P. S.: Dêem todos as mãos numa súplica para que São Pedro feche suas comportas... O céu já deve estar até desbotado de tanto que essa criatura o lavou! Chega de água, né?

1ªs gravações - Fotos de Flávia Carvalho